Sobre o mistério da fotogenia e o teste de filmes

Fotogenia. Estranho que seja tão feia a palavra que define “a qualidade ou característica própria de quem ou daquilo que apresenta uma bela imagem ao ser fotografado, filmado, etc”. Eu achei que o correto seria “fotogenicidade”, que também não é lá uma palavra tão bonita, mas o pai-dos-burros (o dicionário, hehe) mostrou que eu estava errado. Seja como for, o que importa é que nunca podemos saber de antemão se uma pessoa é fotogênica ou não. Há pessoas, as que mais invejamos, que são tanto bonitas quanto fotogênicas; há outras que são bonitas, mas que de fotogênicas não têm nada; há casos estranhos de pessoas que não são bonitas, mas são fotogênicas e há, no final, a triste categoria das que não são nem bonitas, nem fotogênicas. Na verdade, pensando bem, há ainda um grupo mais bizarro: o das pessoas que são feias de verdade, mas, de maneira inconveniente, adoram ser fotografadas. (O único jeito de lidar com os membros desse grupo, quando amamos a arte da fotografia, é evitá-los a todo custo.  E não adianta: eu me recuso a dizer a qual grupo pertenço). Fato é, digressões à parte, que não importa o quanto você ache uma pessoa bonita ou feia, você nunca pode saber, antes de fazer pelo uma foto da mesma, se ela é fotogênica ou não.

(Um adendo: claro que foi uma piada  a sugestão de correr dos feios que gostam de ser fotografados. E ainda mais importante do que isso é o fato de que a grande fotografia não se restringe ao que é “bonito”. Isso seria restringir demais o escopo da mesma. Boa parte das grandes imagens não tem nada a ver com beleza, pelo menos não em um sentido rasteiro. Mais sobre isso outra hora. Agora, voltando ao assunto…)

A foto acima foi um desses casos surpreendentes. Não que minha amiga seja feia, longe disso, mas me surpreendi ao revelar as fotos e ver o quanto ela era fotogênica. Essa é apenas uma de quatro ou cinco fotos que fiz em rápida sequência. Em cada uma delas ela está com uma expressão diferente, pois eu fui tirando as fotos enquanto ela conversava com uma amiga comum. Esta, aliás, é uma ótima maneira de fazer retratos. É que todo mundo, quando posa para uma foto, tende a assumir a mesma postura, sorrir do mesmo jeito. No final, o que se tem são montes de fotos nas quais a pessoa está basicamente com a mesma cara. Claro que há algumas pessoas (que não precisam, aliás, ser modelos) que têm dom natural para posar e conseguem fazer todo tipo de caras e bocas. Este, porém, é um talento e os talentos são por sua própria natureza propriedade de poucos. Mas, como eu ia dizendo, para conseguir expressões variadas de uma pessoa, é interessante fotografá-la enquanto ela está concentrada em outra coisa, total ou parcialmente inconsciente do fato de estar sendo fotografada.

O outro assunto referente a esta foto diz respeito ao teste de filmes. Se você ler O Negativo, de Ansel Adams, vai ver que ele afirma que os filmes preto e branco raramente funcionam melhor na velocidade que os próprios fabricantes atribuem a eles. Daí a necessidade, se você quiser obter os melhores resultados que um filme pode proporcionar, de pacientemente fazer testes para descobrir qual a melhor velocidade para usar um determinado filme. Essa velocidade em geral será menor (às vezes até bem menor) do que a velocidade dada pelo fabricante. A principal vantagem, quando você acerta a velocidade do filme, é conseguir mais detalhes nas sombras, ou seja, nas partes mais escuras da imagem. Para fazer a foto deste post, por exemplo, usei o clássico Kodak Tri-X, que todos sabem ter velocidade 400. Só que eu o expus como 160.

Se você não tiver cochilado enquanto lia esta explicação, talvez tenha se perguntado: mas por que não simplesmente descobrir na internet qual a “melhor velocidade” para usar um filme qualquer? Simples: pode haver variações na maneira como lotes diferentes de um filme são fabricados. Então, o mesmo filme que hoje fica bom a 160 pode não funcionar bem nessa velocidade amanhã. E os fabricantes se dão ao direito de alterar o método de fabricação dos filmes sem avisar ninguém a respeito.

Isso parece complicado e difícil, eu sei, mas, como disse certa vez Jung (o psicólogo) , “tudo que é bom é difícil”.

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